Lispector.



Minha primeira leitura de férias foi "Perto do Coração Selvagem", de Clarice. Particularmente, não tenho fascínio pela autora, mas sei reconhecer que suas pedras são rigorosamente lapidadas. Aposto no pulso feminino, não literalmente, mas literariamente, como algo que me incomoda. O estilo mulherzinha com molejo de amor machucados que está presente mesmo na construção das personagens mais obscuras, porque tem antes a ver com a forma de contar que com o propriamente dito.

Em uma sessão do filme "A Hora da Estrela", que assisti recentemente na FUNDAJ, passei um tempo discutindo essa minha relação inconstante com as obras lispectorianas. Fiquei destrinchando isso, inclusive, enquanto Marcélia Cartaxo, eterna Macabéa do cinema brasileiro, debatia sobre o longa com o público. Mas após a exibição, eu começava a enteder certos pontos e precisava mesmo falar antes de pensar, como em fluxo de consciência, algumas impressões. Era um atropelo de egoísmo, não de má educação.

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Uma das minhas interrogações neste dia era: será que afino melhor com livros que para falar do indivíduo falam do mundo ou com os que para falar do mundo mergulham no indivíduo?

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(alguns) GRIFOS MEUS

- O que é que se consegue quando se fica feliz? sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
- Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
- Ser feliz é para se conseguir o quê?

(pág. 29)
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Sua qualidade era exatamente não ter quantidade, não ser mensurável e divisível porque tudo o que se podia medir e dividir tinha um princípio e um fim. Eternidade não era a quantidade infinitamente grande que se desgastava, mas eternidade era a sucessão.
Então Joana compreendia subitamente que na sucessão encontrava-se o máximo de beleza, que o movimento explicava a forma - era tão alto e puro gritar; o movimento explica a forma! - e na sucessão também se encontrava a dor porque o corpo era mais lento que o movimento de continuidade ininterrupta.

(pág. 44)
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- Quem se recusa o prazer, quem se faz monge, em qualquer sentido, é porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.

(pág. 52 e 53)
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- Não..., assustou-se ela. - É que tudo o que eu tenho não se poder dar. Nem tomar. Eu mesma posso morrer de sede diante de mim. A solidão está misturada à minha essência...

(pág. 179 *grifo que o descreve muito bem)

E o passado é uma roupa que não nos serve mais...

Acho que hoje é um bom dia para fazer uma retrospectiva pessoal de dois mil e nove. Menos porque é natal, mas mais mesmo por ser o dia do especial de Roberto Carlos e por eu estar na casa de praia e toda a família ter ido para um bar aqui perto.

Este ano traiçoeiro agiu, paradoxalmente, devagar e de repente para levar uma das pessoas mais importantes dessa minha vida que pouco significa. Desembaralhando as informações, é que era pra minha avó estar comigo, vendo este clichê de fim de ano que nos deixava grudadas no sofá, enquanto todo mundo preferia circular pela cidadezinha de Pitimbú (tão sem novidade quanto o especial do Rei, diga-se de passagem).

Costumava ser assim. Até que chega um dia que não é mais e depois desse dia vem uma espécie de pra sempre, entende?

Dois mil e nove, que teve sim seus méritos e maravilhas, tornou-se sinônimo de perda e de saudade. Não é que não dê pra enxergar o que foi ótimo, mas na balança o lado mais pesado fica evidente, por mais otimista que se tente ser. E se a gente aprende alguma coisa é a perceber quanto sofrimento se dedica a experiências mínimas. Que fique claro: não experiências desimportantes. Mas é que o real sentido de transitório ganha clareza quando alguém morre e respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada soa para além de lugar-comum da MPB.

O que sei é que não se atravessa um ano como dois mil e nove e se continua a mesma. Nem perto disso.

A vida amorosa que não cansa de render, principalmente em torno da mesma história (ou seria mesmo uma estória apenas!?), já calejada e cansada. Muito aprendizado aqui e acolá. Os primeiros trabalhos, os novos mestres, os sentimentos renovados e, principalmente, as boas companhias de hoje e de ontem, de perto e de longe, os ouvidos, os ombros e as palavras de consolo pra todos os meus dramas de típica mulher dramática.

Não sei nem como agradecer aos que estiveram por perto este ano, aos que se deixaram cativar apesar da minha chatice e do meu ego (ou, talvez, por eles mesmo), aos que respeitaram minhas ausências, aos que riram junto nas mesas de bar ou choraram junto no dia mais dolorosa que já tive. Enfim, aos que amo, aos que são queridos e com certeza sabem disso: Obrigada.

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Do fundo do meu coração, não volte nunca mais pra mim. :)

Já qualquer coisa doida dentro mexe

Quando estar no mundo e na multidão desperta um sentimento de não-pertencimento e angústia, é porque tá na hora de recolher os caquinhos e ficar só com os meus. Em terra firme.

Perdas e danos

Esses dias de férias badaladas me custaram:

1 celular
1 VEM
1 pedrada na costela
e muito dinheiro


Esse clima de juventude tá saindo muito caro,
quero meu espírito de velhice de volta.

Samsara

Existem relacionamentos nos quais não cabe enteder onde as coisas começam e onde terminam. Muitas vezes eu pensei que tinha colocado ponto final, mas a verdade é que sou péssima com despedidas e rompimentos. Daí que, apesar da vida pregar peças, sempre tem uma hora que a gente pensa: "É, agora acabou mesmo!". E se acabar for acabou chorare, então melhor assim, né?

Até porque o quanto houve de oferta foi o quanto houve de estrago. No entanto, se as partes, além de sãs e salvas, ainda se desejam mutuamente bem: viver, amar, valeu.

E, no mais, dou garantia de que o que você tem de mim vai fazer bem pra você.

Tchau e Benção.


Diria que, no curta, bem se vê que "mais que depressa a mão cega executa, pois que senão o coração perdoa" ainda é um conselho preciso.


(Pra quem ainda não viu "Tchau e Benção", vai passar na FUNDAJ, acho que no dia 17)